|
O Evento
CearAR - Sucesso total !
O sertão finalmente virou mar !
Superou qualquer expectativa o rally mundial de vôo livre que a T'ai e a GO UP realizaram no Ceará.
Mais uma vez as térmicas Cearenses não deixaram a desejar e mais de 95% do percurso de 555kms idealizado, partindo de Juazeiro do Norte no sertão Cearense até o litoral de Camocim, foi completado.
Tudo começou quando o Governo do Estado do Ceará encomendou um evento que promovesse o turismo aventura estado como um todo.
Combinando a experiência adquirida nas 3 edições do Rally Peugeot (realizados nos anos de 95, 96 e 97 no interior de São Paulo) com a bagagem de 7 edições de bem sucedidos eventos de Cross Country em Quixadá (a região do mundo mais constância de condições de vôo), tivemos uma fórmula mágica de sucesso com um evento inédito e atrativo.
Essa fórmula resultou num rally de asa delta partindo do Sul do estado até o litoral Cearense, ao lado da paradisíaca praia de Jericoacoara.
COMO SURGIU A IDÉIA DE "RALLY DE VÔO LIVRE"
A idéia de realizar competições tipo rally, surgiu anos atrás quando numa atitude pioneira no mundo a GO UP lançou o "1o Rally Mundial Peugeot de Vôo Livre".
O objetivo era realizar um evento de vôo livre atrativo para público, mídia e pilotos mas mantendo as características da essência do vôo livre, como provas de velocidade e distância, fugindo da idéia de que o vôo livre para ser atrativo para mídia têm que ser "mascarado" com provas de acrobacia, pouso na mosca e "slalons" tipo speed gliding, que apeser de serem atrativas para a mídia, vão contra as regras básicas do vôo livre, não sendo portanto naturalmente atrativas para os pilotos.
Mas como? A resposta veio no formato do evento.
Para atingirmos o sucesso com o público e manter as características básicas do vôo, teríamos que fazer um evento que chamasse atenção do público e da mídia de uma forma peculiar, aguçando a curiosidade das pessoas.
Um dos principais atrativos para os pilotos de vôo livre atualmente é o fato de podermos viajar com nossos equipamentos, no entanto poucas pessoas sabem que uma asa delta (considerado pela maioria como pedaços de pano associados a uma estrutura de alumínio) é capaz de voar centenas de quilômetros num mesmo vôo. Está formado então o gatilho para despertar a curiosidade geral.
Porém temos um problema: no vôo os pilotos decolam e vão embora, não sendo possível o acompanhamento das provas pelo público em geral.
E se fosse lançado um desafio onde fosse declarado, antes do vôo, o local de pouso dos pilotos ? Dessa forma ficaria evidente a cobertura das distâncias pelas asas.
Voltando para o lado dos pilotos, um dos maiores incovenientes do vôo de distância é exatamente o fato de termos que voltar de carro todo o percurso voado para realizarmos outro vôo no dia seguinte.
E se a montanha se deslocasse junto com os pilotos ? Pronto... chegamos a solução!
Um percurso onde os pilotos decolam de uma cidade e pousam na outra, previamente estabelecida, partindo no dia seguinte desta mesma cidade e assim por diante.
Na época o interior de São Paulo foi escolhido por ser a região que concentrava o maior número de recordes de distância e velocidade de planadores, que utilizam a mesma teoria de vôo que as asas modernas, ou seja, navegação através de térmicas e correntes ascendentes. Outro fator positivo era a proximidade da maior cidade do Brasil, facilitando o deslocamento das equipes de imprensa apresentando também uma das melhores malhas rodoviárias e melhores parques hoteleiros do Brasil. .
Como se tratava de uma área extremamente plana, as decolagens foram realizadas através de reboques, por carro e por trike (asa delta motorizadas).
O evento atingiu todas as metas, sendo até hoje o que ofereceu ao vôo livre o maior retorno de mídia de todos os tempos com matérias veiculadas inclusive no Jornal Nacional e no Fantástico.
Por outro lado, a parte técnica do evento ficou um pouco comprometido pela condição climática. Devido a passagens de frentes frias no período dos eventos, nas 3 edições somente cerca de 50% do percuso pode ser completado.
Era também um evento muito caro devido a estrutura necessária para rebocar todos os pilotos participantes.
A idéia de reacender a proposta do rally em um local com uma condição extremamente constante como o Ceará nos entusiasmava, ficando porém a dúvida quanto a viabilidade de realização do roteiro, principalmente a 1a metade, onde estaríamos voando com o vento de través, sobre rotas jamais voadas por uma asa delta até então.
Para termos uma maior possibilidade de sucesso na realização das provas, seria preciso ter um roteiro bem escolhido, aproveitando os ventos Alísios que constantemente sopram em todo Nordeste Brasileiro. Seria necessário estudar a incidência desses ventos para ver qual a época do ano seria mais favorável considerando a disposição geográfica do estado do Ceará. Os quadrantes de Sul a Sudeste eram os mais favoráveis. Ficou definido então o mês de setembro como o mais propenso a oferecer estas condições de vento.
A porcentagem de sucesso na realização das provas , cresceria muito se o evento contasse com a participação de pilotos de alto nível. De preferência os melhores do mundo.
O mundial de Asa Delta em Brasília caiu como uma luva. Aproveitando a presença dos pilotos que já estavam no Brasil para o mundial de Brasíia, conseguimos a adesão em massa de pilotos de peso de todas as partes do mundo, totalizando mais de 10 diferentes países.
Na primeira proposta desenhamos um roteiro que partia do sudeste do Ceará , passando por 2 cidades até atingir na seqüência Quixadá, Sobral e Camocim.
Uma vez que não haviam montanhas alinhadas com o vento na região de partida do rally que pudessem suportar a realização de um evento deste porte, a opção seria fazer a largada e a prova intermediária com decolagens rebocadas.
Esse trajeto inicial não foi aprovado pelo governo, pois o objetivo principal seria o desenvolvimento do esporte no estado e no caso as decolagens rebocadas, apesar de serem perfeitas para pilotos e mídia, não deixariam plantadas em nenhuma das duas primeiras cidades a semente do esporte no local após a realização do evento. Ou seja, o objetivo era o de divulgar as rampas, as belezas naturais e o potencial de vôo do Ceará.
Tivemos que redesenhar o percurso adaptando-o as condições naturais que o estado oferecia.
Veio então a lembrança da "Caravana Esso", quando há quase 20 anos atrás em uma empreitada pioneira no vôo livre no Brasil, os pilotos Otávio Fiães, Eddie e Jeroen Tillburg, Haroldo Neves, Rony Falcão e Cacau Figueredo, conseguiram um patrocínio da Esso para desbravar novos picos de vôo no Brasil. A bordo de uma heróica Kombi bateram em diversas cidade do Nordeste até chegar no Ceará na cidade do Padre Cícero, Juazeiro do Norte.
Na ocasião foi realizado então oficialmente o 1o vôo de asa delta no Ceará.
As fotos das asas voando ao lado da estátua de Padre Cícero reacenderam minha memória. Lembrei-me que também estive por lá em 94 em busca de novos recordes, porém por considerar a rampa baixa demais, decidimos por decolar rebocado do aeroporto local.
Somando o fato de Juazeiro ser a 2a cidade do estado do Ceará à importância religiosa determinada pela proteção oferecida pelo Padre Cícero, lendário padre milagroso e protetor não só do povo Cearense mas também do nordestino como um todo, ficou definido: a largada será de Juazeiro do Norte.
A outra parte do percurso já estava mais ou menos definida, com a realização dos vôos de Quixadá a Sobral já por diversas vezes nos anos anteriores. Já o trecho Sobral - Camocim, foi inaugurado durante a realização do lendário evento "Ceará 92", que foi o 1o evento de grande porte realizado no Ceará na história do vôo livre.
Faltava agora um ponto intermediário entre Juazeiro e Quixadá. Surgiu então a cidade de Iguatú, onde estava sendo formado um novo foco de pilotos no Ceará.
Uma pequena montanha guardava a possibilidade de construção do viria a ser a última rampa do roteiro a ser definida.
A ROTA 555
Após definido, o roteiro começou a tomar vida própria. Ficou claro que esse era o caminho . A rota 555 estava perfeita. Cada rampa e cada trecho possuia um diferencial. Uma importante colaboração para a história desse evento inédito!
A largada, em Juazeiro, traduzia sua importância pelo encontro entre a história do vôo e a religiosidade do povo seranejo. A decolagem lá foi uma espécie de "revival" da história do nosso esporte.
A Etapa de Iguatú, considerada uma das mais difíceis do percurso por ser longa e com vento través, foi marcada pelo duplo desafio de voar uma rota "virgem", partindo de uma rampa igualmente virgem. Pode ser considerada a etapa das novidades.
Já em Quixadá, falou mais alto a tradição do local sede do XCeará, evento de Cross Country que há 7 anos recebe pilotos de todo o mundo em busca de novos recordes nacionais, continentais e mundiais.
Outra característica marcante deste trecho é o fato de ser o mais longo do percurso, tendo uma extensão de 220kms.
Sobral, ficou marcada na história do vôo desde 1992, quando foi realizado o 1o evento a nível nacional no estado. O "Ceará 92" foi sem dúvida um marco na história do vôo livre no Brasil. Durante o evento o recorde sul-americano foi quebrado por várias vezes. Foi também marcado pela inauguração da rota Sertão-Litoral, quando em um dia do evento, alguns pilotos decidiram abandonar a rota da prova que seguia em cima da estrada para o Piauí, e foram em direção a praia.
Ao chegar lá foram pegos de surpresa por um vento contra extremamente forte. As asas pousavam praticamente na vertical. Vários pilotos capotaram as asas após pousarem.
O desfio desta vez estava em estudar a entrada desse vento de forma oferecer maior possibilidade tanto para que os pilotos completassem a prova como também oferecer segurança na hora do pouso.
A PRECURSORA
Conforme manda o figurino, antes da realização de qualquer rally é necessário, após definida a rota, realizar uma "precursora" do trajeto.
A precursora nada mais é do que uma viagem pelas cidades do roteiro feita antes da realização do rally em si. Nesta viagem são analisados diversos fatores como: opções de hospedagem, refeições, acessibilidade do local e no caso de um rally de vôo livre, também deveriam ser analisadas as rampas envolvidas e nos trechos "virgens" a análise das áreas consideradas perigosas e plotagem das opçÕes de pouso próximas a esta área.
A precursora foi dividida em 2 etapas. Uma aérea e uma terrestre.
Na aérea fizemos um vôo de helicóptero por todo percurso analisando toda a rota onde os pilotos iriam voar, verificando as áreas com poucas opções de pouso e de relvo marcante para passar as observações para os pilotos durante os briefings diários.
O levantamento terrestre foi feito por carro, registrando as estradas de acesso as rampas e possibilidades de resgate nas rodovias e estradas de fazendas.
E assim aconteceu. Após 5 dias de muito vôo, os pilotos finalmente “cumpriram a profecia do boato que dizia que o sertão ia virar mar”, como diz a velha canção do Sá e Guarabira.
Após partirem de Juazeiro do Norte, a 555kms do mar, um grupo pioneiro de pilotos, puderam ver bem de alto a árida paisagem do sertão Cearense se transformando num mar, que de tanto azul, mais parecia uma miragem.
A recompensa por esse feito além da chegada na praia, foi a recepção no “Resort Boa Vista” em Camocim, um hotel 5 estrelas e um dos patrocinadores do evento, que acolheu os pilotos e toda equipe após essa grande façanha.
Aliás, nós realmente nos damos conta de que nossa missão havia sido efetivamente cumprida, quando ao chegar no hotel para preencher a ficha de registro,, aquela que pergunta , nome, endereço, local de origem e destino... então, na hora de preencher o campo destinado para “meio de transporte” os pilotos orgulhosamente não hesitaram em preencher: ASA DELTA !
|